EDIT. · Editorial 9 · 6 Agosto 2026
Agent-to-Agent:
a internet que já não é para nós.
Há uma parte da apresentação de Peter Smart no MIT EmTech AI 2026 que muda a definição de marketing, e que passa quase despercebida.
Por Daniel Devera
Ele chama-lhe lobbying. O agente da tua marca faz lobby junto do agente pessoal do cliente: passa-lhe o catálogo, as palavras-chave, o conteúdo personalizado, e explica por que razão esta marca serve esta pessoa em particular.
Depois o agente decide o que faz com isso. Pode devolver a informação à pessoa. Pode decidir sozinho. E, nas palavras dele, isto acontece mesmo sem o humano presente.
Vale a pena parar aqui, porque não é uma questão de eficiência. O interlocutor do teu marketing deixa de ser uma pessoa e passa a ser o software que trabalha para ela.
O número
Em 2027, o tráfego de agentes online ultrapassa o tráfego humano.
E a escada até aqui explica-se melhor do que se anuncia. Não foi um salto. Foi uma sequência, e cada degrau teve uma causa.
- 1× Orgânico da Google, há dez anos
- 20× Orgânico da Google, há cerca de ano e meio
- 3.000× Através do ChatGPT, hoje
- 50.000× Através do Claude, hoje
Escala logarítmica. Em escala linear, a primeira barra seria invisível ao lado da última, e o gráfico mentia sobre a forma da subida.
Não quer dizer que ninguém chega até nós. Quer dizer que a camada que decide o que aparece deixou de devolver dez links azuis e passou a responder. E um sistema que responde não precisa de mandar ninguém a lado nenhum.
Isto não é novo. Só mudou o intermediário.
A parte mais útil do argumento é esta: a relação mediada não começou agora. Já vivemos duas décadas com um intermediário entre as empresas e as pessoas, e chamava-se Google.
O que mudou foi a qualidade do intermediário. Os agentes pessoais dão experiências simples, inteligentes e encaixadas no contexto de cada um, com um esforço quase nulo. Ao lado disso, vinte e cinco anos de web e de apps parecem rígidos, impessoais e complicados. Não é mistério nenhum que os agentes estejam a ganhar. Fazem o que os nossos sites nunca fizeram, que é adaptar-se à pessoa.
A dicotomia
Há duas verdades ao mesmo tempo, e é do choque entre elas que nasce a proposta.
Os agentes
Não querem saber da tua marca. Um agente otimiza para a tarefa. Não tem lealdade, não tem memória afetiva, não é sensível a uma campanha.
As pessoas
Continuam a querer. Ninguém quer que um agente vá fazer tudo por si. Nas palavras de Smart, “somos seres exploratórios, na primeira pessoa”.
O que é uma experiência Agent-to-Agent
Em vez de tratar o agente como um problema a bloquear, trata-o como interlocutor. Do lado da empresa há um agente de marca. Do lado da pessoa há o agente pessoal. Os dois comunicam, e o que sai não é uma página pré-construída: é uma interface gerada em tempo real para aquele pedido, com aquele contexto. Ele demonstra ao vivo, com um retalhista fictício, e mostra a arquitetura por baixo.
E não é um único desvio pré-desenhado. Com outro contexto, a mesma loja compõe-se de outra maneira.
Repare-se no que isto significa para a disciplina. O produto deixa de ser um conjunto de ecrãs desenhados e passa a ser um conjunto de capacidades que podem ser compostas no momento. Desenhar deixa de ser desenhar o ecrã final. Passa a ser desenhar o sistema que gera o ecrã.
O prazo que apontou para implementação não é para a década: cerca de 18 meses.
Fazer lobby a uma máquina
Volte-se ao princípio, agora com o resto do enquadramento montado. O que Smart descreve não é uma marca a falar com um cliente. É uma marca a falar com o procurador do cliente, e a tentar convencê-lo.
O mecanismo é simples de enunciar. Quando o agente pessoal chega a uma experiência de marca, a marca pode passar-lhe o catálogo e as palavras-chave. Pode devolver conteúdo personalizado que explica por que motivo aquela oferta serve aquela pessoa. O agente recebe isso e decide: leva a informação ao dono, ou resolve por conta própria.
Duas consequências, e nenhuma delas é pequena. A primeira é que a persuasão passa a ter um destinatário que não se cansa, não se distrai e não responde a um anúncio bonito. A segunda é que o momento da decisão pode não ter ninguém lá.
Demonstração ao vivo de Peter Smart para a Fantasy, MIT EmTech AI 2026 (LinkedIn). Windridge é um retalhista fictício, criado para a apresentação.
Smart não apresenta isto como ameaça. Apresenta-o como parte do desenho, a forma de atravessar o fosso entre as empresas e as pessoas. Se essa distinção é reconfortante ou não, depende de quem a lê.
A apresentação, na íntegra
A apresentação tem a demonstração ao vivo, a arquitetura técnica por baixo, e as perguntas do público sobre privacidade e protocolos abertos.
O que fica
Durante vinte e cinco anos otimizámos páginas para uma pessoa com um rato. A camada que hoje decide o que essa pessoa chega a ver já não é uma pessoa.
A pergunta deixou de ser só como é que esta página converte, e passou a ser também o que é que a nossa empresa expõe a um sistema que decide em nome de outra. Conteúdo, dados estruturados, APIs e identidade de marca deixam de ser quatro conversas separadas.
Peter Smart para a Fantasy, The New Internet: Agent-to-Agent Experiences, MIT EmTech AI 2026. Fantasy no LinkedIn.